Category: Filosofia do vestir

  • Diferente

    Diferente

    O mundo inteiro quer que você seja comum.
    Eles sempre vão empurrar para que você se pareça e se comporte como todo o resto.
    Cabe a você empurrar de volta.

    Ramit Sethi

    Li isso outro dia e me lembrei dessa dinâmica, que até já comentei aqui, mas vale lembrar e aprofundar um pouco.

    Nossa imagem é um jogo entre se conformar e se diferenciar da norma. Cada um de nós tem um contexto de vida que define qual é esta norma, mas vivemos sob diferentes camadas. E existe uma pressão social forte que tenta fazer todo mundo em cada camada se vestir de forma similar. É arriscado nadar contra essa maré.

    Se você vive em determinado lugar, compartilha de certas normas com os outros habitantes ali, é sua camada geográfica/cultural. Aí vem a sua camada profissional, e então sua camada social/comunitária, e por fim sua camada pessoal.

    E isso é o quê mais segura nós homens na hora de mudar nossa imagem, de melhorar. O medo de sair da norma, de se destacar, de correr o risco e errar.

    O mundo quer que você seja igual. Quer que você se conforme, que não se destaque. Não seja bom demais, não seja melhor que ninguém — seja mediano. Seja medíocre.

    E o quê acontece quando você é igual a todo mundo? Você tem os mesmos resultados que eles. A mesma vida.

    Do quê você tem mais medo: do julgamento dos outros, ou de chegar no fim da vida com arrependimentos?

  • Inspirando confiança

    Inspirando confiança

    Compartilhando aqui uma história recente que ilustra bem a diferença que a imagem pode fazer, em especial nas primeiras impressões…

    Estava eu numa repartição pública onde fui trabalhar. Pra quem não sabe, nestes lugares é absurdamente comum eles receberem visitas de gente vendendo comida — bonbons, queijos de Minas Gerais, saladas de frutas, etc. Como é um lugar aberto ao público, esses vendedores acabam passando e pegando amizade com o pessoal que trabalha lá, e acabam se tornando frequentes.

    No dia em questão, eu estava resolvendo algumas coisas quando vi uma mini comoção na recepção do lugar. Não dava pra ver exatamente o quê era, mas tinha muita gente em volta de algo… Ou alguém.

    Depois de resolver o quê tinha pra resolver, fui dar uma conferida, e tinha um camarada vestido mais ou menos como o sujeito da foto deste post, usando luvas de plástico pra pegar o produto, que estava numa embalagem bem cuidada. Prestei atenção e ele estava fazendo toda uma apresentação de um cone de brigadeiro pra uma senhora que trabalha na repartição, e eu pensei comigo “esse cara sim é um bom vendedor!.”.

    Logo depois, fui tomar um café e parei pra conversar com uma amiga que trabalha lá sobre o doceiro do dia. Comentei que o cara parece um vendedor de primeira (e no melhor sentido da palavra), e ela respondeu:

    Sim, ele é muito bom! A gente percebe pela roupa dele, sabe? A primeira coisa que a gente olha é isso: ele tem um aspecto limpo e profissional. Ele inspira uma confiança na gente. Eu comprei logo dois cones — e o doce é bom!

    Pensei comigo, “Caramba, ela tá falando o quê todo mundo sente, mas praticamente ninguém pensa. Genial.”.

    Dali a pouco ele passa e agradece a todo mundo. Eu aproveitei pra conversar com ele, e nessa descobri que o cara tinha vendido quase que todo o estoque dele só ali naquele setor!

    Enfim, a moral da história, é que estamos nos vendendo o tempo todo. Mas se você é um bom vendedor ou não, vem em grande parte da confiança que você passa pros outros. E sua imagem, bem, ela é grande parte disso.

  • Sprezzattura

    Sprezzattura

    É capaz que você já tenha ouvido (ou mais provavelmente, lido) este termo nos círculos de discussão de indumentária e estilo masculinos. E é provável que ficou sem entender o quê raios significava, e lendo na Wikipedia ficou ainda mais confuso pensando “o quê diabos isso tem a ver com roupa mesmo?”. Então vamos começar definindo a palavra.

    O quê é sprezzattura?

    O primeiro registro que temos da palavra vem do O Livro do Cortesão, de Baldassare Castiglione, publicado em 1528. O livro em questão é um guia de como ser um bom cortesão e sobreviver no jogo de aparências das cortes italianas da Renascença, e neste o autor define sprezzattura como:

    “Uma certa indiferença, para ocultar todo artifício e fazer o quê quer que você faz ou diz aparentar sem esforço e como se você nem tivesse pensado no assunto”.

    Em outras palavras: sprezzattura é quando você faz algo difícil como se fosse fácil. Pense num artista tocando música sem nem olhar pro instrumento, ou num jogador de basquete fazendo uma enterrada de costas só porque deu vontade. E no caso, é quando alguém se veste de uma maneira bem interessante como se só estivesse vestindo jeans e camiseta, como se isso fosse o normal pra ele.

    Mas agora você pergunta “Tá, mas por quê eu deveria me importar?”.

    Vantagens

    Quando você faz algo complexo, sempre corre o risco de parecer artificial, de parecer falso, e por consequência causar uma sensação ruim nos outros que te vêem, o quê diminui qualquer vantagem social que sua imagem poderia te trazer. Você transparece um ar nervoso e inseguro — características que não ajudam ninguém.

    Mas quando você faz isso com naturalidade, o oposto acontece: o impacto da sua imagem é ainda mais forte, não parece que você está vestido de forma elegante, parece que você simplesmente é elegante. Além disso, você ganha um ar sobrehumano, como se fosse capaz de fazer ainda mais se decidisse se esforçar de verdade.

    Ok, tudo isso parece legal, mas como você coloca em prática?

    Sprezzattura na prática

    É mais simples do quê parece: o truque é abraçar as imperfeições e naturalidade. Por exemplo:

    Você decide usar uma gravata borboleta. Ao invés de cometer o erro de comprar uma de nó pronto, que absolutamente simétrica e perfeita (e portanto artificial), você compra uma legítima e faz o nó você mesmo. E ele fica um pouquinho torto. Ótimo — perfeito em sua imperfeição. Seu nó tem um toque humano e portanto natural.

    Ou digamos que você pegou um lenço pra usar no bolso do casaco. Ao invés de fazer uma dobra complexa e geométrica, você só dobra ele num quadrado pequeno e deixa um pouquinho pra fora. Ou até, coloca o lenço amassado dentro do bolso. Você (teoricamente) nem passou tempo pensando no assunto, só fez e pronto.

    Ou ainda, você decide usar uma calça de linho. Linho sendo linho, sua calça fica amassada. Isso dá a ela um ar natural e faz parecer que você não está tão preocupado assim — não está fazendo tanto esforço pra impressionar. E isso, por si só, acaba impressionando.

    Mas então é só me vestir sem me esforçar?

    Não exatamente. Lembre-se: é fazer algo incrível sem esforço aparente. Ninguém acha impressionante o cara que tenta dar um mergulho e cai de barriga, não importa se ele fez isso sem nenhum aparente esforço. Mas o outro que pula de costas e faz um mergulho perfeito — aí sim é impressionante.

    Então faça um esforço, mas não esfregue na cara dos outros. Isso vai impressionar mais que tudo.

  • Questão de opção

    Questão de opção

    Antigamente, um costume era algo basicamente obrigatório. A razão pela qual chamamos o conjunto de costume + camisa + gravata + sapatos de “roupa social”, é porque isso era o aceitável em sociedade. Em outras palavras: se você estava lidando com outras pessoas (socializando), você tinha que estar vestido adequadamente (com um costume).

    Isso era antigamente, porém. Hoje em dia provavelmente não existe mais nenhum lugar onde é esperado que um homem use um costume toda vez que sair de casa ou receber visitas. Alguns ainda trabalham em locais com dress codes, mas fora do trabalho ou alguma ocasião especial, ninguém espera que você use um costume

    Em outras palavras, se tornou algo opcional.

    E eu sou totalmente a favor disso.

    Pode soar estranho vindo de mim, pois raramente alguém me vê usando outra coisa que não roupas de alfaiataria. Até porque, minha jornada no assunto moda, roupas e imagem, começou por volta de 2009, e essa época foi bem um período de redescoberta das roupas de alfaiataria. E eu acabei indo nessa onda e me apaixonando tanto que acabei me tornando um profissional da área.

    Mas sou totalmente favorável ao fato de isso não ser mais uma obrigação social, por 3 motivos:

    1. Isso dá a cada um a liberdade de escolha de como se vestir. Enquanto uma parcela gigantesca vai usar essa liberdade de forma questionável, outros de nós vão aproveitar para experimentar mais. E só através de experimentação que inovação ocorre¹.
    2. Muitos de nós não teriam aprendido a apreciar o estilo clássico se esse fosse forçado goela abaixo (eu mesmo, provavelmente odiaria).
    3. O fato de ser uma escolha nos faz apreciar mais quando alguém veste estas roupas. Se fosse apenas por obrigação, não teria a mesma graça, nem pra quem se veste, nem pra quem observa. Mas quando alguém faz essa escolha hoje, as pessoas sabem que foi justamente isso: uma escolha.

    Ainda defendo que pra maioria de nós, as roupas de alfaiataria são a melhor opção. Mas vamos focar na palavra opção, certo?

    ¹ E de fato, ocorreu muita inovação e redescoberta de lá pra cá, sendo que a alfaiataria nunca foi tão interessante quanto é agora.

  • Discussão sartorial

    Discussão sartorial

    Na época da faculdade de Moda, eu participei de uma pesquisa de iniciação científica. Minha orientadora (e uma das melhores professoras da faculdade) estava pesquisando sobre a Moda e a Rede — como a Moda no mundo real influenciou a internet e vice versa.

    Achei o tema era legal pra caramba, algo que eu já tinha uma boa experiência com (foi através da internet que me aprofundei no assunto, afinal), e além de tudo dava um desconto bom na mensalidade da faculdade¹. Maravilha.

    ¹ Faculdade de Moda não é nada barata, deixe-me dizer.

    Cada um dos alunos participando da pesquisa ia pegar um viés próprio para falar, eu eu obviamente peguei pra falar como nós homens nos relacionamos com a Moda através da internet. E foi algo fascinante pro resto do pessoal, que no geral não tinha ideia.

    Você vê, tem algo crucialmente diferente na maneira que homens lidam com o assunto em comparação com mulheres. Se você conhece algo sobre moda feminina online, sabe que é o mundo da blogueiras, YouTubers e influenciadoras de Instagram. E sim, nós temos tudo isso também (aqui é um blog, afinal). Mas tem algo que homens realmente gostam que falta no mundo feminino.

    Discussão

    Como eu mostrei na minha pesquisa, o público masculino gosta de discutir sobre o assunto. Não só ler sobre em blogs, e não só ver fotos ou vídeos. Nós queremos falar com outros homens sobre. E isso muitas vezes inclui discutir, no sentido de discordar mesmo.

    Gostamos de falar sobre o quê está certo ou errado, bom ou ruim, se algo é de bom ou mau gosto, etc. Muito mais do quê no mundo feminino, no masculino existem parâmetros, e você será julgado pelos outros². Tanto é assim, que apesar de haver bem menos livros sobre indumentária masculina, há uma quantidade desproporcional de guias de como se vestir.

    ² Ok, no feminino há muito julgamento também, mas é quase sempre pelas costas. Homens não se importam tanto de falar que te acham mal vestido.

    E o quê acontece é que, os homens que engajam nessas discussões, sempre acabam aprendendo mais. Olhando nos fóruns gringos (infelizmente nunca tivemos um decente no Brasil sobre o assunto), dá pra ver a evolução do camarada de quando ele entrou no fórum até hoje, e invariavelmente é pra melhor. Isso é algo que sinto que falta muito aqui e que segura um pouco a imagem do homem brasileiro.

    E qual a solução? Como um todo, eu não sei. Mas individualmente (isso é, pra você lendo aqui), é simples: comece discussões sobre o assunto. Fale com seus amigos sobre e compartilhe o quê aprendeu. Posso te garantir com mais de uma década de experiência, que por trás do escudo de preconceito besta atrás do qual muito cara ainda se esconde nesse país, todos eles — sem exceção — se interessam pelo assunto e vão se empolgar de trocar ideia.