Author: vinicius.b.gennari

  • Preconceito indumentário

    Preconceito indumentário

    Sabe que durante muito anos eu não gostava de camisas polo? Elas se tornaram peças do uniforme de alguns grupos quando eu era adolescente. Eu sempre fui muito individualista e não queria de jeito nenhum pertencer a nada. Nisso acabei desenvolvendo esse preconceito com a peça.

    Isso durou anos. Até que, um dia, peguei pra assistir o primeiro filme do James Bond: Dr. No.

    Pra quem não viu, ele é diferente do resto, meio que um protótipo do resto da franquia. Mas o figurino é ótimo logo de cara: na sua primeira cena, Sean Connery veste um conjunto black tie com gola xale e punhos virados, falando sua (agora clássica) introdução “Bond. James Bond“.

    Mais pra frente, tem este trecho da foto, em que ele está numa praia tropical vestindo uma camisa polo e calça chino.

    “Hm…”, pensei comigo. “Sabe que até é um visual bem legal?”.

    E num instante, morreu meu preconceito com a peça. Eventualmente eu comprei algumas, e percebi que ficava melhor nelas do que em camisetas — a gola ajuda a disfarçar meu pescoço longo. Elas acabaram se tornando a malha padrão no meu guarda-roupa, pra quando estou sossegado em casa ou em alguma situação casual (mas ainda prefiro camisas).

    Todos nós temos alguns preconceitos assim com roupas. Por essas é importante sempre expandir suas referências.

    Não gosta de calça com pregas? Por quê? Já experimentou uma? E talvez uma jaqueta de veludo funcione bem pra você. Ou uma camisa henley? Já viu umas fotos de gente usando bem? Tem também aquela cor que nunca usou antes…

    Se você nunca questionar, vai perder algumas ótimas opções. Saia (um pouco) da zona de conforto e expanda seu vocabulário.

  • Cognição indumentária

    Cognição indumentária

    Eu já falei outras vezes sobre o contexto social da sua imagem: quem você quer impressionar, o quê está comunicando, sobre se conformar ou se rebelar contra o status quo, etc. Isso tudo é indispensável. Mas é essencial também considerar como as roupas afetam você mesmo.

    Em 2012, dois cientistas realizaram um estudo a respeito do efeito que as roupas tem sobre quem veste. Chamado em inglês de enclothed cognition¹ (traduzido aqui como cognição indumentária) este estudo demonstrou algo interessante…

    Em três experimentos, participantes aleatoriamente selecionados foram colocados pra resolver alguns testes. O objetivo foi avaliar se o uso de um jaleco de laboratório afeta a performance — aqui medida como atenção a detalhes — dos participantes.

    Em todos os três experimentos, a resposta foi um claro sim: vestir o jaleco de laboratório melhora a atenção. Conseguiram determinar também que não era só a presença do jaleco, mas o ato de vesti-lo que causa o efeito. Porém, o fato mais curioso foi o quê o segundo experimento demonstrou.

    No segundo experimento, eles separaram 3 grupos:

    • 1 grupo vestindo jalecos de laboratório
    • 1 grupo vestindo jalecos de pintor
    • 1 grupo que só olhou pro jaleco de laboratório

    O resultado, como já disse, foi que os de jaleco de laboratório se saíram melhor — consideravelmente melhor. Mas o truque? Os jalecos “de laboratório” e “de pintor” eram os mesmos. A única diferença foi como os cientistas identificaram para os participantes.

    Este fenômeno acontece por conta de associações que absorvemos durante a vida através de nossa cultura. Os jalecos de laboratório fazem a pessoa se sentir um cientista e se comportar como tal (mais atenciosamente, mais racionalmente). Um costume faz você se sentir mais poderoso, no controle e assertivo. Etc.

    Isso demonstra como suas roupas podem literalmente te transformar. Então, vista-se como quer ser, e isso vai facilitar sua transformação (indo com calma, é claro). O clichê de “vista-se pro cargo que quer, não pro quê tem” se mostra verdadeiro.

    Mas lembre-se que o significado não é completamente fixo. Assim como o jaleco “de laboratório” foi melhor que o “de pintor”, você pode criar associações positivas ou negativas para suas roupas — além daquelas que já absorveu culturalmente. Então, ao invés de pensar “garçom” quando vestir um costume, pense “executivo”.

    Ou “agente secreto”. O quê for mais útil, é claro.

    ¹Journal of Experimental Social Psychology, Volume 48, Issue 4, July 2012, Pages 918-925: Enclothed cognition

  • O mito do makeover

    O mito do makeover

    Existe esse mito, que acredito ter se propagado graças a filmes e programas de TV: Um “expert” vai reformular a imagem do protagonista, e o primeiro passo é jogar tudo do guarda-roupa no lixo. Em casos mais cômicos, até fazem uma fogueira. Isso acabou associado ao processo de consultoria de imagem, levando muita gente a crer que vai ter que jogar tudo fora se buscarem o serviço. Compreensivelmente, isso deixa o sujeito um pouco com o pé atrás.

    Talvez exista algum consultor faça isso. Nunca vi, mas é possível. O quê pratico e vejo colegas praticarem, porém, não condiz. No que diz respeito a renovar o guarda-roupa, acho que a melhor atitude é a seguinte:

    “Faça o quê pode, com o quê tem, bem onde está”.

    Esta frase, geralmente atribuída a Theodore Roosevelt (que era um cara impressionante, pelas histórias), soa bem lógica, né?

    Afinal, o trabalho do consultor envolve, entre outras coisas, ver o quê você já possui de útil. Assim economizo seu dinheiro, tanto nas compras quanto na sua evolução depois — uma hora a consultoria termina e o cliente tem que ser independente, ou o consultor falhou.

    Manter algumas peças também te ajuda a se acostumar com sua nova imagem. Se trocar tudo completamente de um dia pro outro, provavelmente vai sentir um desconforto enorme.

    Agora, isso não é desculpa pra não mudar, pra se manter apegado a coisas que não tem mais utilidade (ou que nunca tiveram). Mas é sempre bom temperar nossas ideias e atitudes, pra evitar ir completamente para qualquer extremo.

  • Sua imagem contra suas palavras

    Sua imagem contra suas palavras

    Vou relatar aqui uma história famosa pra ilustrar como sua imagem pode afetar, de forma positiva ou negativa, a percepção que os outros têm de você, e do quê você diz também.

    Em 26 de setembro de 1960, ocorreu um evento histórico na política: o primeiro debate televisionado. Os então candidatos à presidência dos EUA, John F. Kennedy e Richard Nixon, se encontraram em um estúdio para debater suas propostas políticas, com milhões de americanos assistindo, e com uma parcela menor escutando pelo rádio.

    O contraste entre os dois candidatos era grande: Kennedy tinha uma imagem jovem e saudável — o quê, ironicamente, não condizia com a realidade; ele escondia sérios problemas de saúde. Já Nixon, que tinha saído do hospital há pouco tempo, parecia pálido e suava profusamente.

    Segundo conta a história, aqueles que assistiram ao debate acreditaram que Kennedy tinha vencido claramente, enquanto aqueles que escutaram pelo rádio deram a vantagem a Nixon. Como 88% das casas americanas já tinham TV a esta altura, considera-se que este debate definiu as eleições e ganhou a presidência para Kennedy.

    Em debates subsequentes, Nixon se saiu bem melhor, tendo se recuperado e adotando uma dieta mais saudável. Mas o dano já tinha sido feito, e a primeira (má) impressão que o o candidato causou no debate inicial não foi superada até o dia das eleições.

    Após a vitória, o recém-eleito Kennedy disse “foi a TV mais que qualquer coisa que virou o jogo”.

    Esta história ilustra dois pilares da consultoria de imagem:

    1. Sua aparência importa mais do que o conteúdo da sua fala.
    2. Primeiras impressões são extremamente difíceis de superar.

    Se a imagem de alguém pode ganhar uma eleição presidencial, sem dúvida pode te ajudar no dia a dia, não?

  • Consideração aos outros

    Consideração aos outros

    Tem uma frase legal, que você já pode ter lido ou ouvido:

    “Se vestir bem é uma forma de bons modos”.

    Tom Ford

    Eu gosto desta frase. Ela trás algumas grandes verdades nela. Quando você se veste, se veste não só pra si, mas para os outros também. A não ser que seja um narcisista extremo, você não passa o dia na frente do espelho, então quem mais vai te ver é todo o resto do mundo. Quando você se veste bem, está apresentando algo agradável de se olhar pra quem cruza seu caminho.

    Parece pequeno, mas pense nas vezes em que esteve em algum lugar com muita gente e todo mundo estava vestido como quem nem saiu de casa. Você provavelmente lamentou o fato de estar todo mundo feio, ou talvez tenha ficado com o humor um pouco pra baixo inconscientemente. Pra quem mora em São Paulo, pense na diferença entre pegar o metrô na linha verde e pegar na linha vermelha.

    Uma outra verdade contida nesta frase, é que você demonstra consideração aos outros conforme se veste. Você mostra que se deu ao trabalho de se arrumar pra estar na presença daquela pessoa (mesmo que não tenha se vestido especificamente para ela). O quê você veste mostra o que acha das pessoas a sua volta.

    Pense em quando recebe gente em casa prum jantar ou festa. Você não vai atender a porta de cueca. Você veste calças e coloca uma camiseta pelo menos.

    Então, recomendo que faça um esforço ao se vestir. O resto do mundo vai te agradecer (e muitas vezes te recompensar).