Author: vinicius.b.gennari

  • Relíquias indumentárias: Suspensórios

    Relíquias indumentárias: Suspensórios

    Pra quem não faz parte de alguma cena punk/hardcore, ou algo retrô como lindyhop, é fácil esquecer que suspensórios existem. Cintos são tão predominantes aqui no Brasil (desconfio que por conta da hegemonia do jeans), que você pode passar meses sem ver qualquer pessoa usando suspensórios. O quê é uma pena, considerando que eles são opções muito melhores pra alguns homens. E por quê isso? Tem duas razões principais: conforto e imagem.

    Conforto

    A questão do conforto é especialmente aplicável a quem tem a barriga maior. Se você faz parte deste grupo, nem preciso te explicar a aporrinhação que é calça com cinto: a barriga empurra a frente da calça pra baixo constantemente, e você passa o dia puxando ela pra cima. Todo dia.

    Mas com suspensórios? Você pode pegar umas calças com a cintura mais larga — até confortavelmente larga, que cairia sem algo pra segurar. Aí você veste suspensórios e seus ombros seguram as calças, sua barriga tem espaço, e tudo fica perfeito.

    Pra quem tem problemas no estômago, intestino ou outro desconforto abdominal recorrente (diverticulite, doença de crohn, colite, etc), suspensórios também trazem um conforto incrível: assim como no caso anterior, você pode agora usar calças folgadas na cintura, aliviando possíveis crises.

    E mesmo se você não faz parte de nenhum dos dois grupos anteriores, o conforto de não ter a cintura apertada depois do almoço é algo sempre bom.

    Imagem

    Uma das primeiras coisas que aprendemos na consultoria, é a usar linhas para manipular a imagem da pessoa. E suspensórios, sendo basicamente duas fitas que sobem verticalmente e vão aos seus ombros, fazem esse papel muito bem.

    Em especial, isso favorece homens mais baixos: eliminando o cinto — que te corta no meio e te faz parecer mais baixo — e vestindo um suspensório, você instantaneamente parece um pouco mais alto (e de quebra parece ter tórax e ombros mais largos). Da mesma forma, também ajuda quem tem a barriga grande e ombros não tão largos.

    Note como a linha do suspensório alarga o tórax e os ombros, tornando o cara mais imponente

    Como usar

    Suspensórios não são a coisa mais difícil de usar, no geral: prenda nas calças, vista nos ombros. Minhas três recomendações são:

    1. Não use cinto e suspensório juntos

    Isso é o principal. Ambos os acessórios cumprem a mesma função, então fica simplesmente estranho, redundante e bagunçado demais.

    2. Prefira suspensórios de botão

    Isso pode ser um pouco mais difícil de achar em lojas físicas, mas online você encontra. Suspensórios de botão são feitos para prender em botões costurados por dentro do cós das suas calças (leve num alfaiate ou costureira se necessário, mas é algo extremamente simples de fazer).

    Você pode fazer seu melhor cosplay de Patrick Bateman com eles

    Este tipo de suspensório é muito melhor que o de clipes, pois não fica mastigando o cós das suas calças (evitando o desgaste) e tem um aspecto mais elegante. Isso não significa que você não pode nunca usar os de clipe, mas eu guardaria estes para usar bem de vez em quando.

    3. Prefira calças com a cintura natural ou alta

    Calças de cintura baixa raramente ficam boas com suspensórios (ou no geral), e grande parte das questões de conforto são perdidas com estas. Se possível use suspensórios com calças que vão até logo abaixo do seu umbigo — esta é sua cintura natural.

    E um fato curioso pra concluir

    Você sabia que em ocasiões formais (white tie) ou semi-formais (black tie), suspensórios são a única alternativa aceitável às suas calças se segurarem por conta própria? Pois é: cintos são considerados informais demais para estas situações.

  • Seus 5 primeiros passos na alfaiataria

    Seus 5 primeiros passos na alfaiataria

    Muitos sujeitos tem perguntado ultimamente:

    “Eu quero muito me vestir melhor, usar umas roupas de alfaiataria, um tern…digo, costumeMas como eu começo?

    Pra quem olha de fora, o mundo da alfaiataria e indumentária clássica masculina pode parecer algo muito grande e complexo. E muitas vezes, é sim. Porém, não precisa ser, especialmente quando você está começando. Então resolvi escrever esse artigo pra te ajudar nos primeiros passos.

    Então aqui vão algumas dicas fáceis pra você entrar no mundo da alfaiataria:

    1. Confira o quê você já tem no guarda-roupa

    Como já falei antes, pra comprar de forma inteligente, você deve considerar o quê já tem primeiro. Desta forma você evita desperdiçar dinheiro na sua jornada.

    Talvez já tenha algumas camisas decentes, ou uma calça que ganhou de presente, ou mesmo aqueles sapatos que arranjou pra usar em um casamento. Note tudo que tiver. Também note peças que podem ser usadas com roupas de alfaiataria sem parecerem estranhas. Desde um jeans escuro sem rasgos nem detalhes chamativos, até uma camisa henley ou aquelas polos básicas.

    2. Sapatos são a fundação

    Um bom par de sapatos vai elevar quase qualquer coisa. Então pra começar, uma sugestão simples é pegar um par de sapatos sociais ou botas são simples e fáceis de combinar com muita coisa (costumo recomendar a Louie, apesar deles não me pagarem por isso¹). Mesmo que no seu armário só tenha jeans, um par de derbies marrons vão cair bem, e depois quando comprar calças de alfaiataria eles vão continuar te servindo.

    ¹ Mas eu aceitaria umas formas de cedro se me oferecessem…

    O segredo aqui é pegar algo um pouco mais casual, então derbies, loafers ou botas são as melhores pedidas. Se tiver brogueing (aquela perfuração decorativa), ótimo também. Recomendo evitar preto, e solados de couro, apesar de legais, dão muito trabalho — deixe estes pra mais tarde.

    3. Camisas ao invés de camisetas

    Depois dos sapatos, o quê você pode fazer que vai combinar facilmente com muita coisa e elevar seu visual é conseguir algumas camisas sociais. De início, fique nas cores básicas — branco, azul claro e verde maçã. Mangas longas, por favor (não existe camisa social de manga curta), sem bolso no peito, com gola razoavelmente firme e bem ajustada ao seu corpo.

    Aliás, camisas com aquela cauda são feitas pra se usar por dentro das calças. Inclusive, sabe qual é o nome dessa “cauda” nos meios de camiseiros? Fralda. E leva este nome porque parece literalmente isso quando usado por fora da calça.

    4. Calças (não jeans)

    Finalmente, hora de sair da hegemonia do jeans. Chinos são uma opção boa pra quem ainda não está pronto a comprar calças de lã ou linho: são levemente mais arrumadas que jeans, mas ainda fáceis de cuidar e similares o bastante pra você não se sentir tão estranho.

    Outras calças de sarja com cores diferentes também entram aqui, mas procure aquelas com menos detalhes, que não fiquem datadas rapidamente. Eventualmente, procure umas calças de lã fria (as dicas na hora de comprar um costume se aplicam aqui) ou linho.

    5. Casaco de alfaiataria

    Vão chamar de blazer, vão chamar de paletó, vão chamar de tudo menos jaqueta. Mas não importa: o quê importa é que te sirva bem. A adição desta peça vai melhorar qualquer look que você for usar (exceto talvez se você estiver de calção de banho).

    Novamente, os conselhos pra comprar um costume vão te ensinar como escolher seu casaco, mas com o adendo que você pode comprar algo um pouco menos “sério”. Um tecido com uma padronagem discreta (ou nem tanto), ou com alguns detalhes pra casualizar, são ideias legais. E como isso é algo pra iniciar, comprar em brechós é altamente recomendado. Casacos costumam ser mais caros e você pode enjoar do seu primeiro depois de um tempo.

    Bônus: Gravatas

    Pra quando quiser experimentar. Palavra-chave: experimentar. Então este não é o momento de investir centenas de reais em gravatas de pura seda ou linho. Pegue gravatas que acha que ficariam legais com as camisas que tem — não combine, complemente.

    Com isso você consegue ir lentamente se sentindo mais confortável em usar roupas de alfaiataria. E lembre-se: um passo por vez…

  • Questão de opção

    Questão de opção

    Antigamente, um costume era algo basicamente obrigatório. A razão pela qual chamamos o conjunto de costume + camisa + gravata + sapatos de “roupa social”, é porque isso era o aceitável em sociedade. Em outras palavras: se você estava lidando com outras pessoas (socializando), você tinha que estar vestido adequadamente (com um costume).

    Isso era antigamente, porém. Hoje em dia provavelmente não existe mais nenhum lugar onde é esperado que um homem use um costume toda vez que sair de casa ou receber visitas. Alguns ainda trabalham em locais com dress codes, mas fora do trabalho ou alguma ocasião especial, ninguém espera que você use um costume

    Em outras palavras, se tornou algo opcional.

    E eu sou totalmente a favor disso.

    Pode soar estranho vindo de mim, pois raramente alguém me vê usando outra coisa que não roupas de alfaiataria. Até porque, minha jornada no assunto moda, roupas e imagem, começou por volta de 2009, e essa época foi bem um período de redescoberta das roupas de alfaiataria. E eu acabei indo nessa onda e me apaixonando tanto que acabei me tornando um profissional da área.

    Mas sou totalmente favorável ao fato de isso não ser mais uma obrigação social, por 3 motivos:

    1. Isso dá a cada um a liberdade de escolha de como se vestir. Enquanto uma parcela gigantesca vai usar essa liberdade de forma questionável, outros de nós vão aproveitar para experimentar mais. E só através de experimentação que inovação ocorre¹.
    2. Muitos de nós não teriam aprendido a apreciar o estilo clássico se esse fosse forçado goela abaixo (eu mesmo, provavelmente odiaria).
    3. O fato de ser uma escolha nos faz apreciar mais quando alguém veste estas roupas. Se fosse apenas por obrigação, não teria a mesma graça, nem pra quem se veste, nem pra quem observa. Mas quando alguém faz essa escolha hoje, as pessoas sabem que foi justamente isso: uma escolha.

    Ainda defendo que pra maioria de nós, as roupas de alfaiataria são a melhor opção. Mas vamos focar na palavra opção, certo?

    ¹ E de fato, ocorreu muita inovação e redescoberta de lá pra cá, sendo que a alfaiataria nunca foi tão interessante quanto é agora.

  • Discussão sartorial

    Discussão sartorial

    Na época da faculdade de Moda, eu participei de uma pesquisa de iniciação científica. Minha orientadora (e uma das melhores professoras da faculdade) estava pesquisando sobre a Moda e a Rede — como a Moda no mundo real influenciou a internet e vice versa.

    Achei o tema era legal pra caramba, algo que eu já tinha uma boa experiência com (foi através da internet que me aprofundei no assunto, afinal), e além de tudo dava um desconto bom na mensalidade da faculdade¹. Maravilha.

    ¹ Faculdade de Moda não é nada barata, deixe-me dizer.

    Cada um dos alunos participando da pesquisa ia pegar um viés próprio para falar, eu eu obviamente peguei pra falar como nós homens nos relacionamos com a Moda através da internet. E foi algo fascinante pro resto do pessoal, que no geral não tinha ideia.

    Você vê, tem algo crucialmente diferente na maneira que homens lidam com o assunto em comparação com mulheres. Se você conhece algo sobre moda feminina online, sabe que é o mundo da blogueiras, YouTubers e influenciadoras de Instagram. E sim, nós temos tudo isso também (aqui é um blog, afinal). Mas tem algo que homens realmente gostam que falta no mundo feminino.

    Discussão

    Como eu mostrei na minha pesquisa, o público masculino gosta de discutir sobre o assunto. Não só ler sobre em blogs, e não só ver fotos ou vídeos. Nós queremos falar com outros homens sobre. E isso muitas vezes inclui discutir, no sentido de discordar mesmo.

    Gostamos de falar sobre o quê está certo ou errado, bom ou ruim, se algo é de bom ou mau gosto, etc. Muito mais do quê no mundo feminino, no masculino existem parâmetros, e você será julgado pelos outros². Tanto é assim, que apesar de haver bem menos livros sobre indumentária masculina, há uma quantidade desproporcional de guias de como se vestir.

    ² Ok, no feminino há muito julgamento também, mas é quase sempre pelas costas. Homens não se importam tanto de falar que te acham mal vestido.

    E o quê acontece é que, os homens que engajam nessas discussões, sempre acabam aprendendo mais. Olhando nos fóruns gringos (infelizmente nunca tivemos um decente no Brasil sobre o assunto), dá pra ver a evolução do camarada de quando ele entrou no fórum até hoje, e invariavelmente é pra melhor. Isso é algo que sinto que falta muito aqui e que segura um pouco a imagem do homem brasileiro.

    E qual a solução? Como um todo, eu não sei. Mas individualmente (isso é, pra você lendo aqui), é simples: comece discussões sobre o assunto. Fale com seus amigos sobre e compartilhe o quê aprendeu. Posso te garantir com mais de uma década de experiência, que por trás do escudo de preconceito besta atrás do qual muito cara ainda se esconde nesse país, todos eles — sem exceção — se interessam pelo assunto e vão se empolgar de trocar ideia.

  • O quê é estar bem vestido?

    O quê é estar bem vestido?

    Muito se fala sobre estar bem vestido: sobre como é importante estar arrumado, como ter uma boa imagem pode te ajudar, etc. Mas raramente alguém define exatamente o quê é estar bem vestido.

    Na concepção de muita gente, estar bem vestido é simplesmente usar roupas mais “chiques“. Comprar coisas caras e de marca, ou pagar um alfaiate/costureira bem caros pra fazer algo. Mas como qualquer evento com celebridades, filmes ou programas de TV rapidamente provam, dinheiro não compra bom gosto.

    Se perguntar a outros, vão responder com o clichê que “estar bem vestido é estar de acordo com a ocasião“. Mas se limitar a isso significa apenas ficar na neutralidade, sem se destacar. Você talvez não esteja mal vestido, mas também não está nada além do medíocre. Além do mais, muitas ocasiões não tem definido muito bem como é a forma adequada de se vestir. Qual é o uniforme para trabalhar numa agência de design, por exemplo?

    E tem a galera que é “conforto acima de tudo“. Isso soa legal, exceto que ninguém vai te respeitar se você estiver com uma camiseta furada e calça de moletom.

    Então temos que pensar mais fundo para definir o quê é estar bem vestido. E pra responder a pergunta, temos que pensar de forma objetiva. Sendo assim…

    Para quê nos vestimos?

    Podemos definir sua meta ao se vestir como sendo “impactar sua vida positivamente”. É a definição adequada, mas… É muito vaga pra nos ajudar, né? Podemos destrinchar de quê formas este impacto pode ocorrer, em 4 áreas principais:

    Impacto social

    Suas roupas comunicam, e podem causar reações específicas nas pessoas do seu âmbito social. Você pode se vestir para chocar, para impressionar, para impôr mais respeito, etc. Grande parte do tempo, essa vai ser a consideração primordial, contanto que não sacrifique (muito) as outras. Humanos são animais sociais, afinal.

    Impacto profissional

    Através da sua imagem, você pode conseguir melhorar sua situação profissional. O velho clichê de “se vestir para o emprego que quer ter” se aplica. Há muita gente que pensa que pelo fato da sociedade estar mais casual isso não tem mais importância, mas é um pensamento equivocado. Você talvez não seja mandado embora do trabalho por não se vestir bem, mas inevitavelmente está abrindo mão de muitas vantagens. É o custo de oportunidade.

    Impacto psicológico (auto-estima)

    Você se veste para se sentir bem consigo. No fim das contas, o resto vai voltar aqui (melhorando outros aspectos da sua vida, melhora também sua autoestima). Isso, porém, não é desculpa pra se vestir de qualquer forma porque “eu me sinto bem assim”. Você tem que pensar a longo prazo: pode até se sentir bem de shorts e camiseta de futebol, mas se comparecer assim numa entrevista de emprego logo vai estar se sentindo bem mal por uma série de outras razões. Por isso as considerações sociais e profissionais vem primeiro.

    Impacto romântico/sexual

    Quem diria, né? (absolutamente todo mundo) A maneira que você se apresenta pode ajudar muito nos seus relacionamentos afetivos, te tornando consideravelmente mais atraente e comunicando certas características específicas. É importante lembrar que isso serve não só pra atrair alguém, mas também para manter essa atração viva. Um erro extremamente comum é a pessoa “largar mão” porque já está namorando ou casou. Isso é um caminho rápido pra tomar uma bota.

    Impacto físico

    Levemente menos importante que o resto, mas também deve ser levado em consideração o impacto que suas roupas causam no seu bem estar físico. É na verdade a razão original para a maior parte das populações humanas se vestirem, exceto para algumas que vivem em ambientes quentes (mas é interessante notar que mesmo essas se adornam). Razão pela qual não é aconselhável andar de preto no meio-dia do verão brasileiro, usar saltos muito altos, cintos apertados quando se tem um problema gastrointestinal, ou pela qual calçados amortecidos (além de feios) não são aconselháveis¹.

    Concluindo

    Parece bastante coisa, mas é mais simples de resolver do quê parece. Como eu disse lá em cima: se vestir bem é se vestir de maneira que impacta sua vida positivamente. Então se pergunte: o quê vai causar melhor impacto social? Profissional? Psicológico? Afetivo? Físico? E seja cauteloso na hora de responder: evite as respostas fáceis, procure referências na vida real.

    Só definindo uma meta você vai conseguir atingi-la.

    ¹ Contra intuitivo, eu sei, mas o uso de calçados amortecidos está diretamente ligado ao aumento de lesões, pois afeta a maneira que você pisa e atrofia a estrutura dos seus pés. Seres humanos andaram e correram em chão de pedra durante uns 10 mil anos antes de inventarem essas coisas. Isso ao menos sugere que não existe a necessidade de usar uma mola nos pés, né?